O mercado de solventes para indústria gráfica sente os efeitos do grande número de opções e busca a consolidação dos insumos que tratam com responsabilidade o ambiente e a saúde do trabalhador gráfico. Outro diferencial dos produtos amigos do ambiente é a preservação das máquinas gráficas.
Opção já consolidada em diversos mercados mundiais, os produtos químicos parceiros do ambiente, aqui no Brasil, ainda encontram algumas barreiras de crescimento. São poucas as empresas que verdadeiramente iniciaram o processo de troca dos insumos, em busca da baixa agressividade. Especificamente na indústria gráfica a máxima se mantém. Com exceções para grandes e, às vezes, médias empresas gráficas, a utilização de insumos destinados à manutenção e limpeza dos equipamentos gráficos prejudiciais ao ambiente e à saúde do operador ainda esbarra na falta de cuidado.
Modificar a cabeça do gráfico não é tarefa das mais simples. Toda a classe gráfica pecou por um longo período na fixa idéia do conservadorismo. Partindo do empresário até o impressor, o processo de mudança de um determinado produto utilizado há tempos é um árduo caminho persuasivo. Ainda mais quando o novo envolve valores mais elevados. Por outro lado, com o passar do tempo, também é verdade que as novas tecnologias incentivaram o empresário a fazer investimentos, o que abriu espaços para novos e modernos produtos.
Nesta reportagem, o objetivo principal é debater sobre os solventes utilizados na indústria gráfica. “O mercado gráfico vem se tornando mais exigente com o passar do tempo. Principalmente as gráficas de maior porte estão tendo mais consciência em relação ao ambiente. Trabalhamos há alguns anos nessa linha de produtos ecológicos e biodegradáveis, mas a cultura do gráfico brasileiro é complicada de ser mudada. Ele investe milhões no equipamento, mas não se preocupa com a saúde dos funcionários e com a preservação do próprio equipamento. Nas gráficas médias e pequenas, tentamos colocar a idéia do produto responsável e acredito que isso mudará, mas levará algum tempo”, arrisca Fioravante Módolo Junior, diretor comercial da Duplicopy.
Relativamente nova no mercado brasileiro, a tecnologia base água sofre também com a mudança nos valores dos produtos. “Não acredito em conservadorismo no mercado gráfico brasileiro, que acho bastante profissional. A grande dificuldade é que a tecnologia amiga da natureza é relativamente nova e cara. O gráfico aceita o novo, mas não consegue assimilar o caro. É importante lembrar que a Printcor foi uma das companhias precursoras na tecnologia do verniz à base de água no Brasil. Com relação a solventes de limpeza, a Printcor tem uma parceria com um líder mundial na produção de solventes ecologicamente corretos e fazemos a distribuição deles no mercado brasileiro”, informa Marco Zorzetto, gerente industrial da Printcor. Na opinião de José Luis Izquierdo, diretor-presidente da Divol, no Brasil as empresas nacionais recebem pouco incentivo para inovações e, por esse motivo, lançamentos de produtos que não poluam o ambiente se tornam difíceis. “A Divol lançou vários produtos menos agressivos para uso na indústria gráfica e de embalagens, tais como limpeza de rolos, chapas, numeradores, cilindros de anilox, variados tipos de sistemas de aplicação de hot melt, colas frias e descontaminantes de aparas para reciclagem de papel”, acrescenta Izquierdo.
Para a Metalgamica, que iniciou o movimento responsável há dez anos durante a Fiepag, os grandes empecilhos para a consolidação dessa linha de produtos são a adaptação e os custos envolvidos. “O que falta na realidade é o conhecimento técnico, por parte do usuário nas empresas consideradas de médio e pequeno portes, para analisar as diferenças dos produtos. No caso das grandes gráficas, além de manterem um técnico responsável pelos insumos periféricos, o próprio manual das máquinas rotativas e planas de última geração traz os produtos homologados pelos fabricantes dos sistemas de limpeza manual e automática das blanquetas e de entintamento”, observa o diretor Dacio Calvi.
De acordo com Eduardo Menegoli, diretor da Archem, é inegável que ocorreram mudanças positivas no sentido de as empresas usarem produtos menos agressivos, mas o mercado ainda está longe do ideal. “Temos uma parceria com a Diacel para a distribuição de solventes dentro do estado de São Paulo, e freqüentemente fazemos avaliações da receptividade das novas tecnologias pelo mercado. Infelizmente, certas empresas apresentam grandes dificuldades para entender as inúmeras vantagens da troca por solventes mais ecológicos. Por outro lado, a grande procura pela certificação ISO 14000 leva muitas gráficas a alterarem seus procedimentos em busca de alternativas mais adequadas”, opina Menegoli.
Solventes e álcool isopropílico, que são dos maiores vilões do mercado, não constam na linha de produtos da Heidelberg. “Lançaremos oficialmente na Expoprint 2006 a linha Saphira, que é exclusiva com a marca própria da Heidelberg. Ela engloba todos os produtos de consumo e funcionará como um O&M desenvolvido pelos fornecedores para superar as expectativas exigidas pelas máquinas da Heidelberg e de outras marcas. A própria solução de fontes da Heidelberg reduz a utilização do álcool isopropílico”, avisa Marcos Roque, gerente de consumíveis da Heidelberg.
Atentar para as tendências de mercado e galgar passos mais largos à frente da concorrência são objetivos da Druck Chemie. “Os produtos Druck Chemie são desenvolvidos dentro das rigorosas normas ambientais e trabalhistas da Alemanha e seguem os critérios dos fabricantes de máquinas impressoras. Após extensivos testes e fases experimentais, o produto resulta em forte poder de limpeza e baixo consumo, com certificados emitidos pela Fogra (Graphic Technology Research Association) e fabricantes de máquinas. Esses processos garantem a compatibilidade perfeita e ótimos resultados”, atesta Mauricio Nakata, analista técnico da Druck Chemie e instrutor offset do Senai.
Ganhos na prática
Falar em aumento de custo implica comprovar quais as vantagens que um produto responsável proporciona. Em primeiro lugar é preciso levar em consideração que se comparado o investimento feito numa máquina impressora com os valores dispensados nos insumos que a alimenta, a diferença é gritante. Provavelmente os valores, durante os longos anos de utilização do equipamento, nunca serão equiparados. “Os custos de insumos gráficos, incluída toda a linha de produtos químicos utilizados, é inferior a 1% do preço do orçamento. Há uma briga para reduzir valores naquilo que muitas gráficas nem sequer colocam como custo. Das gráficas, 90% não colocam os produtos químicos como custo de matéria-prima e, no entanto, se preocupam em diminuir o que representa 1%. É nesses centavos que o gráfico quer economizar, usando produtos de baixa qualidade, que não preservam o equipamento e poluem o ambiente”, diz Módolo.
Nakata compartilha o mesmo pensamento: “Existem muitos empresários gráficos que ainda compram por preço e esquecem do produto final. Quando se utiliza solvente adequado, os rolos, as blanquetas e as máquinas atingem facilmente sua vida útil, podendo até ser prolongada. Assim é possível evitar trocas, manutenção e paradas de máquinas. O empresário gráfico tem muito a ganhar com o uso de solventes menos agressivos. Os resultados de impressão dependem muito das condições dos rolos e blanquetas. Para mantê-los em bom estado é necessário o uso de solventes adequados, que resultarão numa melhor manutenção de todo o equipamento gráfico.” Palestras e treinamentos oferecidos pelos fabricantes são ótimas formas de mostrar ao mercado todas as vantagens. “O solvente menos agressivo, além de proporcionar uma grande melhoria no ambiente de trabalho, reduz problemas de saúde ocupacional, aumentando consideravelmente a vida útil de vários componentes das impressoras. Se forem avaliadas todas as variáveis resultantes da mudança, poderemos ver que os benefícios foram consideráveis. Freqüentemente, tanto a Diacel como a Archem promovem treinamentos regulares para clientes, vendedores e representantes. O objetivo desses treinamentos é levar o máximo de informações aos impressores sobre os prejuízos que o uso de solventes inadequados poderá causar aos usuários e aos equipamentos operados por eles”, completa Menegoli.
Uma questão interessante levantada por Sérgio Roberto Chelotti, supervisor de vendas da Duplicopy, é que essa geração de gráficos e fornecedores conheceu os caminhos da indústria gráfica desde a tipografia até a impressão digital. Evoluir significa caminhar em novos mercados com novas alternativas de insumos. “Antigamente o gráfico recebia um papel como ordem de serviço. Hoje todo o processo é conduzido pela informática. Há uma preocupação em aprender a lidar com equipamentos novos, manipular um computador e isso abre espaço para novas alternativas, como é o caso dos produtos ecologicamente corretos. Hoje, a Duplicopy aposta todas as suas fichas no trabalho de conscientização do cliente. Viajamos o Brasil inteiro mostrando as vantagens e orientando sobre o uso e a aplicação do produto. Quando comparados produtos de alta qualidade, a diferença em relação a preço é muito pequena. Por isso, temos que diferenciar a parte de assistência técnica, treinamento e informações. É nisso que apostamos nos últimos anos e é um dos motivos que nos levaram à conquista de mercado”, afirma.
Por outro lado, Izquierdo crê que o gráfico é acomodado a seus sistemas, em sua maioria, arcaicos. “Renovar, trocar, perder tempo com aprendizado e ensinamentos não estão no caminho dos gráficos nem dos empresários. A Divol deu muita assistência e palestras sem retorno algum, o que nos levou à redução financeira. O campo de vendas de solventes é grande, por isso é preciso manter a qualidade nos produtos”, conta. Independentemente da falta da participação dos próprios interessados, continuar com prestação de serviços após a venda dos insumos é vital. “A utilização de solventes corretos pode diminuir os custos com manutenção, seguro, redução de set-up e maior vida útil das blanquetas e sistemas de tintagem. Nossos técnicos e vendedores técnicos visitam periodicamente os clientes levando informações necessárias para que a cada dia o usuário final possa analisar a ficha técnica de cada produto. Ao analisar o manual técnico, o usuário pode comprar o produto ideal para seu equipamento”, justifica Calvi.
Além do departamento de assistência técnica, que ministra palestras e treinamento sobe temas de interesse do mercado gráfico, a Printcor, quando a pauta é solvente de limpeza, decidiu dividir o mercado. “Gráficas modernas, localizadas em grandes centros ou com grande facilidade na compra de solventes, possuem maior acesso a produtos de tecnologia ecológica. Já as pequenas, localizadas em lugares de difícil acesso, utilizam gasolina, querosene, nafta ou o que tiverem à mão. A oferta no mercado gráfico brasileiro é hoje muito maior do que a demanda. Isso obriga as gráficas a ajustes drásticos em seus custos e os solventes de limpeza não escapam. O grande ganho obtido é a saúde no trabalho e uma melhor manutenção e preservação dos equipamentos e dos insumos gráficos. A preservação é de grande importância, mas, lamentavelmente, ainda está longe da nossa realidade. A única perda seria econômica, e soma-se a isso a necessária vontade de se adaptar aos novos produtos”, ressalta Zorzetto.
Tecnologia digital: parceira ou adversária?
Passada a fase de experiências na área digital - hoje uma realidade consolidada no mercado gráfico brasileiro -, a dúvida que paira no ar é a redução ou não na utilização de insumos gráficos. “Neste momento acho que não, mas no futuro, dependendo da evolução nas formulações das tintas e blanquetas, acredito que seja possível utilizar outro tipo de produto para o processo de limpeza durante o processo de impressão”, opina Calvi. Reduzir talvez, eliminar não. “O uso do solvente poderá ser muito reduzido, mas a eliminação será difícil. Mesmo em processos digitais, como as impressoras DI, o uso de solventes é essencial. Por mais digital que possa evoluir o processo, sempre terá algo a limpar com a ajuda dos solventes”, defende Nakata.
Independentemente das previsões de redução ou manutenção no consumo de químicos, a Duplicopy inaugurará uma nova fábrica de químicos em São Paulo. “A tendência é diminuir o número de insumos ou até mudar as alternativas. Conquistar mais clientes e aumentar a produção, atendendo as necessidades do mercado, apoiados em pesquisas e desenvolvimentos, são ações diferenciais no mercado” frisa Módolo. Na visão de Zorzetto, o solvente pode ter uma drástica diminuição em seu volume devido às novas tecnologias de pré-impressão, mas com relação ao processo de impressão ainda não existe possibilidade de eliminação.
Quando evolui, a indústria gráfica acaba deixando para trás alguns conceitos ou modelos de funcionamento. “As tecnologias digitais evoluem muito rapidamente. É bem provável que os processos digitais substituam gradativamente a impressão offset convencional em poucos anos. Acreditamos que os sistemas de baixas tiragens serão substituídos em primeiro lugar. As grandes tiragens levarão um tempo maior. É óbvio que essas mudanças resultarão numa transformação profunda nos tipos de insumos que serão utilizados”, opina Inaldo Ribeiro, gerente de marketing da Diacel. O gerente de consumíveis da Heidelberg acredita que a grande tendência é a redução da demanda de filmes no Brasil. “O que a gente vê em fóruns e reuniões é a grande mudança da linha analógica para a linha digital. Antes, quando se falava em digital, tínhamos só a linha térmica e hoje já é possível abrir para a linha prata, que é a violeta prata, e a grande vedete do mercado, que é linha fotopolímera. Começamos a vender, cada vez mais, tecnologia digital na linha fotopolímera.”
Para Janaina de Souza Costa, engenheira química da Duplicopy, a tendência é diminuir acompanhando a evolução da indústria gráfica. “Diminuindo toda a área de fotolito, a demanda de químicos diminuirá. Um dia, a indústria gráfica poderá revelar uma chapa com água. A partir do momento em que uma empresa conseguir desenvolver chapas de revelação fácil, nós desenvolveremos um produto para revelação fácil, agregando valores a ele. Essa redução no uso de químicos é só daqui a 20 ou 30 anos; enquanto isso, precisamos atender nossos clientes”, opina.
Mercado e suas peculiaridades
Alta concorrência, infinitas ofertas e produtos de baixa qualidade são os ingredientes do setor de solventes para a indústria gráfica. Muitas vezes, é difícil concorrer com insumos fora de padrões mínimos exigidos para a manutenção da qualidade. Consciência ambiental e ética não se conquistam, são exercidas no cotidiano. “A própria evolução do mercado consumidor, mais exigente, provoca uma seleção natural dos fornecedores. As empresas produtoras deverão melhorar sua competência, cercar-se de laudos e certificações, entrar em sintonia com o estado da arte e prestar um excelente serviço aos clientes para permanecer no mercado”, sustenta o gerente de marketing da Diacel.
Saturado? Como assim? “Hoje, os fabricantes de solventes que ainda não atuam no ramo gráfico querem participar da competitividade desse mercado. Para o gráfico, essa realidade não é boa, pois solventes pesados, voltados às indústrias pesadas, como a siderúrgica, acabam entrando com bons preços no mercado gráfico por meio de distribuidores”, observa Nakata. Mudanças nos últimos anos também foram sentidas nesse segmento: “A venda de solventes para o mercado gráfico brasileiro teve uma mudança enorme nos últimos 10 ou 15 anos com a entrada no mercado de grandes grupos fabricantes de solventes de limpeza que atuam também em outros mercados. Antes, os fabricantes de tinta forneciam esses produtos; hoje o mercado está dividido. Com certeza, pelo volume envolvido, no futuro as companhias especializadas deverão ter o mercado nas mãos”, destaca Zorzetto.
Para finalizar, Ribeiro, diz que o mercado se encontra em processo de mudança. “Mas como existe um acervo imenso de equipamentos offset convencionais operando e outros novos sendo produzidos, entendemos que a transição para o sistema digital não deverá ser tão rápida. Os fabricantes dos equipamentos digitais ainda terão que superar essa barreira. De qualquer maneira, estamos continuamente à procura de novas tecnologias que tenham propriedades mais ecológicas, que melhorem a performance e segurança, facilitando o trabalho do impressor.”
Por Fábio Sabbag - da GraphPrint